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Que São Paulo voltou a bombar, há tempos, como centro produtor de música, com o aparecimento de inúmeros novos talentos, trata-se de fato inescapável. Mas é bom prestar atenção numa das mais eloquentes vozes desta virada, a compositora, cantora, violonista e guitarrista paulistana Klébi Nori. Ela faz um inventário de seu corajoso percurso independente (“nunca pertenci a grupos, turmas, tendências, segui bem solitária minha estrada musical”, avisa), que já soma dezesseis anos e cinco discos solo, no CD/DVD “Ao vivo”, chancelado pela gravadora Biscoito Fino. Ao lado do tecladista, arranjador e diretor musical do projeto José Antônio Almeida, que a acompanha desde o primeiro CD, em 1995, KN escolheu “músicas símbolos” dos cinco discos. E enumera: “as que teríamos muito prazer em renovar; as que desejávamos manter como eram e as que sabíamos que as pessoas mais gostavam, adequadas aos arranjos que abrigam cordas e sopros”. O show, que virou DVD e CD, foi gravado na Casa das Caldeiras, em São Paulo, dia 18 de maio de 2010. “Não tive preconceito com relação à denominação “ao vivo”, garante Klébi.

“Pensamos em comemorar, na data, os 15 anos ao lado de artistas, músicos e amigos que gravaram, fizeram temporadas e vivenciaram a história da minha carreira até aqui”.

No elenco, além do grupo instrumental básico liderado por José Antonio, que conta com o baterista Dadi Amil, o baixista Bosco Fonseca, o guitarrista Kaká Magalhães, o violonista Ney Marques e mais Adriano Busko (percussão), Patrícia Ribeiro (cello) e Alex Braga (violino), há participações de Adriana Sanchez (acordeon), Swami Jr e Webster Santos (violões) e Sumé (flauta e saxes). Colega de adolescência de Klébi, quando tocava, acreditem, flauta (como ele próprio revela nos extras do DVD) Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, dueta com a cantora numa versão roqueira, de sua autoria, do bolero “Amor”, dos mexicanos Ricardo Lopez Méndez e Gabriel Ruiz Galindo. “Primeiro artista que comentou meu trabalho”, alista ela, Guilherme Arantes participa com teclados e voz de “Mania de possuir”, composição dele. Cantora de voz possante e nuançada, de postura essencialmente autoral mesmo navegando em obras alheias, Klébi incorporou a seu repertório a desencantada “Salve linda canção sem esperança”, de Luis Melodia, de 1974 (“eu cantava na infância, só regravo quando tenho história com a música”), e “Maria do Futuro”, de Taiguara, de 1970 (“uma música linda e esquecida do compositor, que eu também cantarolava nos quintais da infância”).

Filha do zagueiro Clóvis Nori, campeão do Quarto Centenário de São Paulo pelo Corinthians e um certeiro marcador de Pelé, Klébi ouviu inicialmente Orlando Silva, Dalva de Oliveira e Nelson Gonçalves, os favoritos da mãe. Estudou violão, aos 15 anos começou a compor, apresentou-se em festivais de colégio, teve uma banda chamada Blush, e, aos 24 anos, trocou em definitivo os estudos de Filosofia e História pela música. Suas preferências musicais já se dirigiam aos que chama de “grandes construtores”: Chico Buarque, Caetano Veloso, Moska. E mais, “perfeccionistas” como Eduardo Gudin, “debochados” como Adoniran Barbosa, o “pop chic” de Marina Lima e “mulheres com muita técnica” como Gal Costa e Rosa Maria Collin. Ao lado dos compositores mais novos como Marcelo Camelo, Rodrigo Maranhão, Lula Queiroga e os internacionais James Morrison, Peter Yorn, Gianna Nannini e Malika Ayane, ela alinha escritores de várias estirpes e latitudes como Pessoa, Drummond, Bandeira, Ginsberg, Borges, Carlos Nejar, Antonio Cícero e Hilda Hilst entre suas influencias. “Com os poetas aprendi a raciocinar com métrica, tônicas e rimas”, separa. “Mas ao contrário da lógica poesia/ música, a prosa desempenhou em meu trabalho uma função muito mais marcante, estimuladora, imaginativa e onírica. Neste gênero, gosto de Amós Oz, Saramago, Clarice Lispector, Marguerite Yourcenar, Italo Svevo, Luiz Felipe Pondé e Fabrício Carpinejar”, contabiliza.

Mas o filtro estilístico rigoroso de Klébi Nori não resulta numa arte hermética ou excessivamente “cabeça”. Ao contrário. “Fluo em pop o que penso em MPB”, define, de forma magistral e concisa. Ela tem pegada e atitude de roqueira, mesmo quando aborda o choro, no insinuante “Choro pela cidade” (“chorar no bom sentido/ música no seu ouvido”). Ou engata marcha num samba provocador, “Corcovado sem seu senhor” (“Redentor deixou seu manto/ pra lavar num tanque/ de uma boa nega ateia/ que se diz lá da judeia/ e quer ensinar-lhe um funk”), que propõe a mudança da célebre estátua do Rio de Janeiro para o Pico do Jaraguá, em São Paulo. “Tenho muitos amigos cariocas e nos divertimos muito evidenciando todos os tipos de diferenças, por isso resolvi fazer uma brincadeira saudável”, ironiza. No repertório, entre suas composições, não faltam “as que tocam em rádios”. Como a sensual “Calendário lunar” (“Passa leve no meu lábio a língua/ enquanto lá fora a lua míngua”), parceria com Silvana Stiévano, a farpada balada “Ligeiro” (“eu tampo o ouvido/ não escuto o ódio do amor/ ódio de amor comovido”) e a tensa “A cidade de outro” (“vive me mandando embora/pensando que eu sou outra pessoa/ o meu beijo é diferente”).

Também foram escaladas preferidas pessoais da autora, como “Pé de amor” e “Perdão com poesia”, que se move entre a toada e o xote: “Para alguém será nova forma/ a primeira fatia/ ninguém guardará dor/ só o amor caberá, cabe e cabia”. Sua escrita afirmativa em temas amorosos, foge ao sentimentalismo banal e pode cortar direto na veia, como na parceria com José Antônio Almeida, “Fiz”: “Fiz muita história bonita aos poucos feder/ fiz pra ninguém suspeitar/ que fiz por querer”. Ou fustigar as feridas, na baladona entrecortada por sax, “Saiba você”: “Melhor saber/ não causar mais desconforto/ mas saiba você/ que não dei o nosso amor por morto”. Compositora que trabalha preferencialmente com o violão, Klébi deixa “fluir ideias que normalmente já nascem com um desenho melódico”. Por outro lado, “também faço só letras, aliás, me deleito com elas, colocarei ou não música a qualquer momento, porém muito pouco componho só músicas. Aproveito meus sentidos e os organizo, sou muito metódica”, define-se.

O projeto “Klébi Nori Ao vivo” traz ainda inéditas, “para inserir uma célula atemporal que o vincule a um novo compromisso autoral”, situa. “Lua morta” entra como bônus de estúdio, “um momento íntimo”, do CD. “Teci a letra com uma representação imaginária apocalíptica de um romance”, descreve. “Área irrestrita”, outra novidade, entrou tanto no CD quanto no DVD. “Compus como se fizesse uma oração urbana. Pedindo compreensão, abrangência para milhões de seres como eu que vivem, amam, cegam, numa cidade como a minha. A letra também faz alusão ao fato de eu percorrer vários ritmos ao compor, escrever letras que provocam esses ritmos, além de gostar de fragmentos”, decupa. Ou seja, é um manifesto da artista libertária que celebra, em grande estilo, sua ampla independência: “É samba, mas não é lei sambar/ um tango pode-se ou não hablar/você tem que fazer da sua vida/ uma área irrestrita”.                     

Tárik de Souza/ Setembro 2011

 

 

 

Ficha técnica cd/dvd

Projeto : Francisco Ancona

Direção DVD : E. Chérri Filho

Direção musical : José Antônio Almeida

Direção artística : Klébi Nori / José Antonio Almeida

Direção de produção : Kátia Placiano

Roteiro musical : Klébi Nori / José Antônio Almeida

Produção musical : José Antonio almeida

Co-produção musical : Dadi Amil / Ney Marques - DNZ Music

Coordenação geral : Sheila Aragão

Produção executiva : Katia Placiano

Assistente de produção : Regina Ortiz

Concepção de figurino : Klébi Nori

Figurino : Vetements

Fotos : Kriz Knack

Projeto gráfico : Ronie Prado

Cabelo : Madalena Azevedo

Maquiagem : Anderson

Designer de luz : Ronaldo Eliezer

Iluminação : Nilson Silva - Nil Light Iluminação

Captação de áudio : u.m. - estúdio Baeta

Técnico de captação de áudio : Luciano Marciani

Autoração : EWS Broadcast

Técnico de PA e monitor : Américo Almeida (Memé)

Mixagem : Flautin 55 - Gaiotto Estúdio, Alexandre Gaiotto

Masterização : Alexandre Gaiotto

 

Participações musicais :

Klébi Nori - voz, violão

José Antônio Almeida - teclado

Dadi Amil - bateria

Bosco Fonseca - contrabaixo, contrabaixo acústico

Kaká Magalhães - guitarra

Ney Marques - violão, bandolim

Adriano Busko - percussão

Patricia Ribeiro - cello, shaker, bombo leguero

Alex Braga - violino

Adriana Sanches - acordeon

Webster Santos - violão

Swami Jr - violão 7 cordas

Sumé - flauta, sax tenor, sax soprano

 

Artistas convidados :

Guilherme Arantes

Roger Moreira

Arranjos :

José Antônio Almeida

Webster Santos

Ney Marques

Gravado na Casa das Caldeiras-SP dia 18 de maio de 2010


Assessoria de imprensa Biscoito Fino

Belinha Almendra -  comunicaçã Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.

www.biscoitofino.com.br

 

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